Editorial da edição 1159 de ÉPOCA
O navio anticorrupção foi o primeiro a partir, com a rachadinha, os rolos de Flávio Bolsonaro, a demissão de Sergio Moro e a entrada dos partidos do centrão no governo. Depois foi a balsa liberal da Faria Lima, que zarpou diante da afeição cada vez mais visível de Jair Bolsonaro à expansão fiscal, mimetizada na ascensão do ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, que antagoniza hoje com Paulo Guedes.
Das políticas de segurança pública, exceto pelos decretos de liberação de armas a civis e crianças, nunca mais se ouviu falar. Diante do desmonte das narrativas que ajudaram a levar Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto, só restou uma à qual ele pode se aferrar: a guerra cultural. A “luta” contra a dita cristofobia e os ataques ao meio ambiente no discurso da Assembleia Geral da ONU, a dancinha em deboche a “maconheiros” e gays num programa da TV aberta, a crítica ao programa de trainee para candidatos negros do Magazine Luiza, a defesa da censura do filme, da Netflix, que faz uma crítica à sexualização precoce das meninas exibindo atrizes de 11 anos em coreografias sensuais. Para onde quer que se olhe nas franjas do bolsonarismo, é só isso que se vê. Dizer que vivemos uma guerra de narrativas pode parecer lugar-comum, mas não há verdade mais cristalina. Com a diminuição da pandemia, o coronavírus perdeu seu lugar como meio de mobilização da militância — e o embate dos costumes voltou à baila. Nessa cruzada contra tudo que é considerado parte da agenda “globalista”, os alvos a serem atingidos são quase sempre virtuais. Buscam-se likes, cliques e compartilhamentos, mas não há, por ora, uma organização estruturada o suficiente para promover retrocessos práticos — felizmente. Quando o deputado federal Carlos Jordy diz que protocolou uma representação no Ministério Público acusando o Magazine Luiza de racismo, sabe-se que sua empreitada é tão fugaz quanto um tuíte. E que ele não se tornará um militante da “causa branca” apto a criar políticas públicas capazes de “proteger” a branquitude. O mesmo para o Ministério dos Direitos Humanos em seu intento de censurarExiste apenas um tipo de situação em que a guerra cultural transcende o palavrório e toca a vida real: quando a fúria virtual se materializa nas mãos de covardes em busca de vítimas vulneráveis. Foi o que aconteceu com a criança de 10 anos violentada pelo tio no Espírito Santo, e cujo aborto legal quase foi inviabilizado pelo séquito da ministra Damares Alves. Se a mesma menina estivesse vivenciando a mesma tragédia em um lar economicamente estável, não receberia visitas impertinentes de enviados da ministra. Recebeu porque ela e sua família estavam em situação vulnerável. Esse episódio diz muito sobre o que está por vir. Na maior parte de suas empreitadas reacionárias, o bolsonarismo vai falhar. Mas os desprotegidos de sempre seguem à mercê de todos os infortúnios: da fome, do desemprego, da violência e, agora, até mesmo da tolice dos fanáticos.O ENCANTADOR DE SERPENTES
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