'Nos dispensaram por não prescrever cloroquina contra Covid-19': médicos acusam operadora de saúde G1
Em estudo clínico brasileiro, uso de hidroxicloroquina não mostrou benefícios no tratamento para Covid-19 e foi associada a efeitos colaterais mais frequentes — Foto: Dirceu Portugal/Fotoarena/Estadão Conteúdo
As mensagens de WhatsApp às quais a BBC News Brasil teve acesso, confirmadas por médicos que prestaram serviços à empresa, ilustram as cobranças relatadas por profissionais do plano de saúde para prescrever hidroxicloroquina em casos de Covid-19. "Eu não queria prescrever hidroxicloroquina a pacientes com a Covid-19 porque não é um medicamento aconselhado por entidades de saúde", conta o médico Mauro*, que relata ter sido dispensado pela Hapvida por não concordar com o uso do remédio contra o coronavírus.
A Hapvida nega qualquer pressão para que os médicos receitem a hidroxicloroquina. A empresa argumenta que adotou o remédio no tratamento contra o coronavírus por "haver evidências" de que a droga pode ajudar no combate ao vírus.Logo no início da pandemia do novo coronavírus, diversos planos de saúde e hospitais públicos passaram a adotar a cloroquina e a hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19.
Além da hidroxicloroquina e da cloroquina, o protocolo da Hapvida também inclui outros medicamentos, como o antiparasitário ivermectina, o corticoide prednisona e o antibiótico azitromicina. A Organização Mundial da Saúde interrompeu estudos com a cloroquina sob a alegação de que as pesquisas apontaram que ela não reduz a mortalidade em pacientes com o coronavírus. Os testes foram retomados depois, mas até o momento os resultados mostram que não há eficácia do medicamento contra Covid-19.
O Código de Ética Médica destaca que o profissional de saúde não pode sofrer pressão para adotar determinado remédio. Na época, a Fundação Ana Lima, braço social da Hapvida, anunciou que havia adquirido comprimidos de hidroxicloroquina e os entregou a hospitais da operadora de saúde, que iriam distribuí-los gratuitamente aos pacientes da rede.
Logo após o início da distribuição dos comprimidos na rede, os médicos, segundo Mauro, passaram a ser cobrados insistentemente para prescrever o remédio. Ele diz que a orientação era receitar a hidroxicloroquina a todos pacientes com sintomas gripais que não fossem alérgicos ao medicamento e não tivessem problemas cardíacos ou renais.
Assim como no interior de São Paulo, ele comenta que a cobrança para receitar a hidroxicloroquina em Fortaleza aumentou quando a Hapvida adquiriu os comprimidos do medicamento. "A partir de maio, queriam que entregasse para qualquer caso de síndrome gripal. Os coordenadores mandavam estudos de baixa qualidade para justificar e usavam poder argumentativo chulo para tentar nos convencer", relata Felipe.
Mauro não queria prescrever o medicamento e manifestou seu incômodo com a situação. "Sigo a medicina baseada em evidência. Se não tem comprovação científica e há estudos dizendo que podem aumentar os problemas do paciente, não era aceitável prescrever", declara o médico. Pouco depois das reclamações, por volta de 20 de julho, ele foi desligado do quadro de médicos da Hapvida.
"Os estudos observacionais têm uma relevância baixa, porque não são, por exemplo, randomizados . Podem ter muitos vieses. Não são adequados ", disse o infectologista Sergio Cimerman, diretor científico da Sociedade Brasileira de Infectologia, em recente entrevista à BBC News Brasil.A pressão da Hapvida sobre a hidroxicloroquina, segundo Jorge, o desmotivou a trabalhar na operadora de saúde.
O Ministério Público de São Paulo informou à reportagem que não recebeu nenhuma denúncia sobre o tema até o momento. "Não havia acompanhamento dos pacientes que usavam o remédio. Entregar a hidroxicloroquina era uma estratégia para tentar diminuir a internação e evitar que os hospitais ficassem lotados, porque a Hapvida vendeu muito durante a pandemia", comenta o médico.
Ele conta que passou a dar plantões em outros hospitais. "Não demorei para conseguir outros empregos", diz. O médico lamenta a situação de colegas que permaneceram na Hapvida. "Muitos não concordam em prescrever, mas não querem perder o trabalho. Acabam sem opção, infelizmente", relata.
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