Áudios e mensagens revelam que traficantes da Cidade de Deus, no Rio, recebiam informações privilegiadas sobre operações policiais de um suposto PM do 18º BPM, conhecido como Bigode Mexicano. O policial detalhava ações do programa Barricada Zero antes de seu anúncio oficial, visando evitar confrontos e prisões e envolvendo pagamentos de propina.
A parte dele é avisar', 'farda nenhuma vai parar o crime': áudios e mensagens mostram que traficantes do Rio negociavam informações com supostos policiais Homem que se apresentava como policial do 18º BPM deu detalhes da operação na Cidade de Deus em grupo que mantinha com os criminososBarricada erguida por facção criminosa na Cidade de Deus, Zona Oeste do Rio — Foto: Gabriel de Paiva/ Agência O Globo/11/02/2025Áudios e mensagens revelam que traficantes da Cidade de Deus, no Rio, recebiam informações privilegiadas sobre operações policiais de um suposto PM do 18º BPM, conhecido como Bigode Mexicano.
Ele detalhava ações do programa Barricada Zero antes de seu anúncio oficial. A Polícia Militar abriu investigação sobre o caso. As negociações visavam evitar confrontos e prisões, e envolviam pagamentos de propina. O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores.
Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas. Era perto do meio-dia de 12 de novembro de 2025 quando os celulares de traficantes da Cidade de Deus vibraram.
“Recado importante”, escreveu um homem antes de enviar um áudio com detalhes sobre o que aconteceria em breve na comunidade. O conteúdo antecipava ações do programa Barricada Zero, que só seria anunciado oficialmente pelo governo do estado cinco dias depois. O alerta aos criminosos descrevia com precisão como seriam as operações e o maquinário empregado.
O homem que repassou as informações não é um informante comum: seria um policial militar do 18º BPM , que atende pelo apelido de Bigode Mexicano. Conversas entre o suposto PM e traficantes da Cidade de Deus, obtidas pelo GLOBO, foram trocadas entre 28 de setembro e 1º de dezembro de 2025 e somam 162 mensagens.
No grupo de WhatsApp, identificado como “PAZ CDD”, ele repassava detalhes sobre operações e orientava os criminosos com base em informações recebidas de um superior, tratado como “chefe” e conhecido pelos bandidos. Após tomar conhecimento pelo GLOBO da existência do grupo e dos diálogos, a Polícia Militar informou que a Corregedoria da corporação abriu um procedimento de investigação para apurar o fato.
Naquele dia, policiais do 18º BPM, em conjunto com o 2º Comando de Policiamento de Área , realizavam uma ação de retirada de barricadas na Gardênia Azul, na Zona Sudoeste do Rio, um preâmbulo do Barricada Zero. No áudio enviado aos traficantes, o agente mostra saber dos bastidores da operação: adiantou que as ações seriam ampliadas para outras regiões do estado, com frequência diária e sem previsão de término.
Bigode, como é chamado pelos traficantes, disse ainda que não conseguiria avisar os criminosos com muita antecedência.
“Esse bagulho que está tendo hoje no Gardênia, de tirar barricada, vai se estender sem tempo definido para acabar. O foco é Gardênia e Cidade de Deus. O chefe falou que, geralmente, quando mandarem, vai ser de uma hora para a outra, quando as máquinas chegarem no batalhão. Então esse é o tempo que ele vai ter para avisar”, afirmou, em áudio.
Traficantes passaram a pedir detalhes sobre as ações. Questionado sobre a frequência na Cidade de Deus, o policial afirmou que a região havia se tornado “o novo foco do governo”. Sempre em referência a um superior, identificado em capturas de tela enviadas aos criminosos como “Jacaré 18” e “Maioral 18 Novo”, Bigode Mexicano detalhou que as operações previstas para os dias seguintes contariam só com uma máquina retroescavadeira. A pouca antecedência nos avisos irritou os traficantes do Comando Vermelho.
Um deles, identificado como Jovem Cristo nas conversas, reclamou da limitação no vazamento das informações: “Ele é 01 do batalhão e não consegue saber pelo menos um dia antes? ”. Em resposta, Bigode Mexicano prometeu ficar “na infra o máximo possível”, expressão usada pelos criminosos para indicar que permaneceria atento. Em 17 de novembro, a operação Barricada Zero foi anunciada pelo governo como uma força-tarefa voltada à remoção de obstruções instaladas por criminosos em comunidades.
A iniciativa, tida como uma das apostas da gestão do ex-governador Cláudio Castro no combate ao crime organizado, reunia policiais militares e civis, além de secretarias estaduais e prefeituras. O policial apareceu no grupo às 19h11 daquele dia para avisar que o maquinário usado na retirada das barricadas chegaria ao batalhão em 19 de novembro. Em seguida, informou que a operação começaria na Cidade de Deus na segunda-feira, dia 24.
As mensagens mostram uma negociação para reduzir os impactos da operação, com pedidos explícitos para que os criminosos não insistissem na reinstalação das barricadas. À época, o governo anunciou um sistema de bonificação para policiais civis e militares que retirassem as estruturas e impedissem que elas fossem recolocadas.
“As que forem retiradas, não é para colocar, porque vai dar merda. Deixa sem por pelo menos 4 a 5 meses”, escreveu o PM. Na véspera da primeira ação do programa, em 23 de novembro, Bigode informou aos traficantes que seis máquinas retroescavadeiras e três caminhões haviam chegado ao batalhão para serem empregados nas operações previstas para o dia seguinte. A movimentação dos criminosos na madrugada de 24 de novembro foi intensa.
Os traficantes se mobilizaram para a chegada das forças de segurança. Nas conversas, determinaram que fossem guardadas as “mesas” — como são chamados os pontos de venda de drogas —, além da separação de armas, dinheiro, entorpecentes e da retirada de material das bocas de fumo.
Dentista inocentado por sete estupros perde ação de indenização, e estado do Rio cobra R$ 600 mil das custas do processo Naquela noite, os criminosos monitoraram a saída de quatro blindados, um caminhão-caçamba e retroescavadeiras do 18º BPM, que foram em direção à comunidade. Ao longo do dia, acompanharam em tempo real no grupo a movimentação das equipes por meio de olheiros, que atualizavam a localização dos policiais.
Ao fim das operações — que, segundo o balanço do governo, retiraram 593 toneladas de barricadas e prenderam sete pessoas em áreas do Rio, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Queimados e São Gonçalo—, os pontos de venda de drogas na Cidade de Deus voltaram a funcionar, e traficantes passaram a circular armados pela comunidade. Em 24 de novembro, PM detalha programação do Barricada Zero “ ‘01’ falou que o bagulho ficou mal para eles porque caiu a noite e começou a passar os amigos aí de moto e pistola na cintura.
Meio que desrespeitou o papo”, afirmou, em áudio, às 19h28. Em resposta ao alerta repassado pelo amigo, Jovem Cristo questionou a cobrança do superior: “Ele deseja o quê? Que a polícia entre e não role o crime? Se for assim então como vamos conseguir o dinheiro dele?
”. O agente rebateu a crítica em tom de orientação e aconselhou os bandidos a evitarem circular pela comunidade enquanto os policiais ainda estivessem na região.
“Espera os caras saírem. Saiu tudo? Manda uma formiguinha, uma mulher, uma criança olhar. Não tem ninguém?
Sai geral para a pista”. Irritado, o traficante afirmou que o superior de Bigode estava “esquecendo” o acordo estabelecido entre eles, chamado de “sintonia”, e afirmou que a obrigação dos agentes era avisar com antecedência. Jovem Cristo disse que os traficantes precisavam “trabalhar”, citou gastos com advogados e integrantes presos da facção e destacou que o objetivo seria evitar confrontos e feridos dos dois lados. Ainda lembrou que o “chefe” recebia propina em troca das informações privilegiadas.
“Ele tá esquecendo que ele é polícia e nós é bandido. A parte dele ele tem que fazer, que é avisar. Agora parar o crime não vai ser ele e nenhuma farda que vai fazer isso não, mano. Porque na quarta-feira espera pra ver se ele não vai cobrar o dinheiro dele”, escreveu Jovem Cristo.
Bigode respondeu que a preocupação do “chefe” era justamente evitar prisões, mortes e uma eventual ruptura no acordo: “A preocupação dele é essa: ‘A gente avisa e ainda vai lá e dá porrada? ’ A preocupação dele é essa, de quebrar o acordo em cima disso, entendeu?
‘Vou entrar, vou fazer o que eu tenho que fazer porque estou cumprindo ordem, mas não vou deixar ninguém montar troia, de covardia’”. Em 27 de novembro, o PM voltou ao grupo para alertar os traficantes sobre a instalação de lixeiras usadas para bloquear ruas da comunidade.
Segundo ele, seu superior havia pedido que os obstáculos fossem retirados para evitar novas operações policiais e até exposição na imprensa: “Ele falou que estão botando lixeira no meio das ruas para fazer barricada, para diminuir o fluxo de carro. Fica na infra aí, rapaziada, manda tirar esses lixos”. Mais tarde naquele dia, o governo do estado informou que a Cidade de Deus e outras quatro comunidades “já estavam livres” das barricadas.
Além da abertura do procedimento de investigação, a Polícia Militar frisou que “não tolera nem compactua com desvios de conduta entre seus membros, punindo com rigor os responsáveis quando os fatos são comprovados”.
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