Pesquisa de Oxford e da FGV mostra que lulistas e bolsonaristas imaginam o outro lado mais radical do que ele é e que corrigir isso reduz a hostilidade
Lula lidera as estimativas de intenção de voto sobre Flávio Bolsonaro para 2026, em uma disputa que deve reeditar a polarização de quatro anos atrás.
, há uma boa chance de que você tenha imaginado o grupo do lado oposto do espectro político mais radical do que ele realmente é. Os números vêm de um estudo sobre polarização política no Brasil publicado nesta sexta-feira na revista Nature Communications. A pesquisa foi liderada por Anna Petherick, da Universidade de Oxford, em parceria com a FGV-Ebape , e tem como coautores Guilherme Ramos, Rodrigo Furst, Rafael Goldszmidt e Eduardo Andrade.
O levantamento ouviu de 2 mil a 3 mil brasileiros em cinco rodadas, entre abril de 2022 e janeiro de 2023, antes, durante e depois das eleições. Nas quatro últimas, acompanhou sempre as mesmas pessoas, o que permitiu medir como o sentimento de cada uma mudava ao longo do tempo. Como fui enganada por mulher que dizia ser uma adolescente de 12 anos com autismo : 'Dei carinho, afeto, comida.
Não tinha como desconfiar' 'Tinha me esquecido da sensação de estar ao ar livre': como é a primeira UTI instalada no terraço de um hospital James Handy, ator de Jumanji, é morto a facadas aos 81 anos nos EUA, e enteado é suspeito de assassinato "As pessoas são muito mais precisas ao estimar as opiniões do próprio grupo do que as do outro grupo. E isso faz sentido, porque você provavelmente convive mais com elas, conversa mais com elas", diz Petherick, em entrevista à BBC News Brasil.
"Mas o interessante é que a forma como elas entendem mal o outro grupo é exagerando aquilo de que não gostam, muitas vezes em torno de questões morais. "Esse abismo entre o que um grupo imagina do outro e o que o opositor de fato pensa alimenta o que os pesquisadores chamam de polarização afetiva. Ela mede a antipatia entre quem pensa diferente. O estudo sugere que essa polarização pode ser amenizada com algo simples: a informação.
"A polarização ideológica é sobre o quanto você discorda do que o outro pensa. A afetiva é o abismo no sentimento, no gostar ou não gostar", diz Petherick.
"Se você discorda fortemente de alguém, provavelmente não vai querer jantar uma pizza com essa pessoa, né? " Desde os anos 1990, na maior parte do mundo, a polarização ideológica ficou mais ou menos no mesmo patamar, segundo os pesquisadores. Ou seja, as pessoas não passaram a discordar muito mais sobre questões-chave. O que cresceu foi a antipatia pelo lado oposto, tendência que preocupa os autores do estudo.
"A antipatia está ligada à intolerância. Fica mais difícil ter um debate fundamentado, chegar a um meio-termo, unir-se para resolver problemas que dependem de toda a sociedade", afirma Petherick. Para medir o quanto as pessoas gostavam ou não umas das outras, o estudo pedia uma nota de 0 a 100 para cada grupo. Em 2022, antes da eleição, a distância era grande.
Em média, os entrevistados davam 72 pontos ao próprio grupo e apenas 17 ao rival. Por que isso acontece, Anna Petherick admite, é "uma pergunta profundamente filosófica". Ela cita estudos de outros países que apontam uma pista cultural.
"Em uma cultura individualista, o sentimento de que o seu grupo tem que estar certo e o outro errado é mais forte do que numa cultura coletivista, em que você se vê como parte do todo. " Para ela, as redes sociais também amplificam o sentimento: "Hoje, qualquer um publica na hora, para o mundo inteiro, sem a pressão de checar. A gente já tende a exagerar quando fala de quem não gosta.
Aí outra pessoa lê, acredita e ainda exagera mais quando repassa. As redes não são a única causa, mas não ajudam". Quase tudo o que se sabe sobre polarização afetiva vem dos Estados Unidos, onde os campos políticos são nítidos - com dois partidos dominando as disputas eleitorais. O interesse por estudar o jogo político brasileiro surgiu pela sua complexidade.
"Nos Estados Unidos é simples: tem os democratas e os republicanos. No Brasil, você tem os petistas e os antipetistas, os lulistas e os bolsonaristas, e esses grupos não se encaixam exatamente uns nos outros", diz Petherick.
"Aí tem gente que só se define contra alguma coisa, não a favor de nada. Quem é o seu grupo, se você é só 'anti' alguém? Você não tem um time. Você tem só aquilo que não é.
" Muito antes do estudo, Petherick já desconfiava de que o sentimento pesava mais que os fatos na política brasileira. A intuição surgiu há mais de dez anos, no doutorado, quando pesquisava corrupção no país e percebeu que suas estatísticas não davam conta do que ouvia em campo.
"As pessoas usavam a palavra 'corrupção' para dizer que não gostavam de alguém. Nem sempre tinha a ver com uma prova concreta. Era quase como labaredas de raiva. Era o sentimento empurrando o comportamento político, mais do que os detalhes técnicos", avalia.
O coração do estudo é um experimento que funciona como o teste do início desta reportagem. A partir da segunda rodada, parte dos entrevistados teve que estimar quantos lulistas e bolsonaristas, em cada dez, apoiavam uma política polêmica. Quase sempre erravam, imaginando o outro grupo mais extremo do que ele era. Em seguida, recebiam os números verdadeiros, tirados da própria pesquisa.
Só então avaliavam de novo o grupo adversário. Quando a pessoa via que a caricatura não batia com a realidade, a rejeição ao outro lado caía. O efeito foi mais forte foi em relação ao aborto. Desmatamento na Amazônia e cotas sociais e raciais também reduziram a rejeição, só que menos.
As pessoas passaram a ver de forma mais positiva o adversário, mas continuaram avaliando o próprio grupo do mesmo jeito. Ninguém precisou abrir mão do que pensava para tolerar mais o outro.
"A ideia não é mexer no que as pessoas acreditam sobre as políticas. É reduzir o quanto elas não gostam umas das outras, para conseguirem conversar sobre o que acreditam de um jeito mais sensato", diz Petherick. Petherick, que já foi jornalista, faz o apelo também a quem trabalha com informação. A pesquisa aproveitou o calendário de 2022 para testar se outros eventos, além da eleição, mexiam com a antipatia política.
A aposta era que um símbolo de identidade nacional pudesse aproximar os grupos, como já se observou com Olimpíadas em outros países. Porém, não foi o que aconteceu. A vitória ou derrota da seleção no Mundial não mudou nada na rivalidade entre lulistas e bolsonaristas. A correção de percepção rendeu ainda um efeito que ia além do previsto.
Ao descobrir os números reais sobre aborto e desmatamento, os lulistas não só passaram a tolerar mais o outro lado. Eles também recuaram um pouco no próprio apoio a essas pautas. Ou seja, mostrar como o outro lado pensa pode aproximar também as opiniões e levar parte do público para o centro. O estudo tem limites, que os próprios autores reconhecem.
Eles não mediram efeitos de longo prazo, por exemplo. Não dá para saber se a redução da antipatia dura dias, semanas ou se evapora pouco depois. Petherick aposta que o roteiro das eleições de 2022 se repete neste ano.
"Uma eleição apertada entre dois times já estabelecidos e bastante entrincheirados aponta para o mesmo aumento de polarização afetiva de novo. " O que a deixa otimista é o que veio depois do último pleito.
A derrota de Jair Bolsonaro foi seguida de semanas de tensão: apoiadores do ex-presidente bloquearam estradas pelo país e montaram acampamentos em quartéis, e, em 8 de janeiro de 2023, uma semana após a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva , eles invadiram e depredaram as sedes dos três Poderes em Brasília. Mesmo assim, a polarização afetiva caiu nos meses seguintes em ambos os grupos.
A última rodada da pesquisa foi a campo cerca de três semanas após os ataques, e registrou a queda. A eleição deste ano caminha para o confronto que Petherick descreve.
Lula aparece à frente do senador Flávio Bolsonaro nas estimativas de intenção de voto para o primeiro e o segundo turno no Com os resultados das pesquisas nacionais divulgadas até a segunda-feira , a estimativa de intenção de votos no petista no segundo turno está agora em torno de 46%, enquanto Flávio Bolsonaro tem 41%. No fim, a pesquisadora insiste que o que decide se uma eleição é saudável ou não é a informação que chega ao eleitor.
"O que mais importa é as pessoas entenderem com clareza quais são as opções e o que cada uma significa para a vida delas. Da forma mais honesta possível, sem serem enganadas pelas redes ou pelos próprios vieses.
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