Faustin Rukundo não fazia ideia de que a ligação de um número desconhecido pelo aplicativo havia infectado seu telefone com um software espião
Rukundo, um ruandês exilado em Leeds, no Reino Unido, já se preocupava com a questão da privacidade. Ele procurou o número na internet e descobriu que o código da chamada era da Suécia.Até que o número ligou de novo.
E, mais uma vez, houve silêncio. Ele observou também registros de ligações perdidas de outros números que não conhecia, e começou a ficar preocupado com a segurança da sua família — decidiu então comprar um telefone novo."Tentei atender e desligaram antes que eu pudesse ouvir qualquer voz", contou Rukundo à BBC. "Sempre que eu ligava de volta, ninguém atendia. Percebi que havia algo errado quando comecei a ver que estavam faltando arquivos no meu celular." "Conversei com meus colegas no Congresso Nacional de Ruanda, e eles também haviam tido experiências semelhantes. Estavam recebendo ligações perdidas dos mesmos números que eu.", Rukundo se deu conta do que havia acontecido. "Li pela primeira vez sobre a história do hackeamento do WhatsApp na BBC e pensei: 'Uau, isso poderia explicar o que aconteceu comigo'", relata. "Troquei meu telefone e percebi meu erro. Eles estavam seguindo meu número e colocando o software espião em cada dispositivo novo, ligando para o mesmo número." Rukundo estava convencido de que ele e seus colegas faziam parte do grupo de cerca de 1,4 mil pessoas que foram vítimas do ataque, que explorou uma vulnerabilidade do WhatsApp.Há seis meses, a organização trabalha em parceria com o Facebook, que é dono do WhatsApp, para investigar o ataque e descobrir quem foi afetado. "Como parte da nossa investigação sobre o incidente, o Citizen Lab identificou mais de 100 casos de violação tendo como alvo ativistas de direitos humanos e jornalistas em pelo menos 20 países em todo o mundo", afirmaram os pesquisadores. O perfil de Rukundo, um crítico ferrenho do governo de Ruanda, é consistente com o dos supostos alvos do software espião., com sede em Israel, e vendido a governos em todo o mundo. Os hackers usaram o software para espionar jornalistas, ativistas de direitos humanos, dissidentes políticos e diplomatas ao redor do mundo.Rukundo diz que não recebeu nenhuma ligação desde o ataque original, mas a experiência deixou ele e a família paranoicos e assustados. "Honestamente, mesmo antes de confirmarem isso, estávamos devastados e aterrorizados. Parece que eles só hackearam meu telefone por cerca de duas semanas, mas tiveram acesso a tudo", afirmou à BBC. "Não só à minha atividade durante esse período, mas a todo o meu histórico de e-mails e todos os meus contatos e conexões. Tudo é vigiado, computadores, telefones, nada é seguro. Mesmo quando conversamos, eles podem estar ouvindo. Não me sinto mais seguro." Rukundo fugiu de Ruanda em 2005, quando críticos do governo começaram a ser presos. E precisou lutar para libertar a esposa depois que ela foi sequestrada e detida por dois meses em uma visita que fizeram à família em 2007.A empresa nega, no entanto, qualquer irregularidade. Em documentos judiciais, o Facebook acusa a empresa de explorar uma vulnerabilidade então desconhecida no WhatsApp.O serviço de mensagens instantâneas é conhecido por sua criptografia de ponta a ponta, o que significa que as mensagens são embaralhadas à medida que trafegam pela internet, tornando-as ilegíveis se interceptadas. A ação, ajuizada em um tribunal distrital da Califórnia, descreve como o NSO Group supostamente instalou o software espião. O poderoso software da empresa, conhecido como Pegasus, é um programa capaz de extrair de forma remota e clandestina informações valiosas de dispositivos móveis, compartilhando todas as atividades do telefone, incluindo dados de comunicação e localização, com o hacker.Empresa com sede em Israel é acusada de ter fornecido o software espião que permitiu aos assassinos do jornalista saudita Jamal Khashoggi rastreá-lo Em episódios anteriores, as vítimas eram levadas a baixar o software espião clicando em links maliciosos na web. Mas no caso do hackeamento do WhatsApp, o Facebook alega que o programa foi instalado nos telefones das vítimas sem que elas realizassem qualquer ação. A companhia diz que entre janeiro de 2018 e maio de 2019, o NSO Group criou contas do WhatsApp usando números de telefone registrados em diferentes países, incluindo Índia, Israel, Brasil, Indonésia, Suécia e Holanda., ligado à Universidade de Toronto, identificou um total de"45 países nos quais o Pegasus está sendo provavelmente utilizado em operações de rastreamento". O estudo abrangeu o período de agosto de 2016 a agosto de 2018."Para evitar as restrições técnicas incorporadas aos servidores de sinalização do WhatsApp, os réus formataram as chamadas com código malicioso para parecerem uma chamada legítima e ocultaram o código nas configurações de chamada", diz trecho da ação judicial. "Disfarçar o código malicioso como configurações de chamada permitiu que os réus o entregassem ao dispositivo alvo e fez o código malicioso parecer como se fosse originário dos servidores de sinalização do WhatsApp", acrescenta o documento.Assim, as vítimas não teriam ideia de que foram hackeadas. Em alguns casos, a única coisa que notaram foram chamadas perdidas misteriosas nos registros do WhatsApp.- Acredita que o ataque foi uma violação de sua rede de computadores;- Aceita que o NSO Group pode ter executado os ataques supostamente em nome de seus clientes, mas está processando a empresa como responsável pela criação do software. O Facebook também alega que a infraestrutura usada pelos hackers incluía servidores pertencentes a outras empresas, como a Amazon Web Services . A AWS pertence a Jeff Bezos, que também é dono do The Washington Post, jornal americano para o qual o repórter saudita Jamal Khashoggi,O NSO Group é acusado de ter fornecido o software espião que permitiu aos assassinos de Khashoggi rastreá-lo."Com a maior veemência possível, contestamos as acusações de hoje e as combateremos vigorosamente", declarou a empresa em nota à BBC. "O único propósito do NSO Group é fornecer tecnologia às agências governamentais de inteligência e segurança para ajudá-las a combater o terrorismo e crimes graves", completou.
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