Cientista político analisa a transformsão do conflito em econômica e a importância vital do estreito para o Irã, enquanto EUA anunciam controle e cobrança de taxa sobre o comércio marítimo, gerando tensões regionais.
O conflito entre Irã e Estados Unidos intensificou-se recentemente, com uma abordagem estratégica dos americanos que visa retirar o controle do Estreito de Ormuz do Irã.
A avaliação é de Mehran Kamrava, cientista político e professor da Universidade de Georgetown no Catar, em entrevista à BBC. Kamrava afirma que o chamado "Eixo da Resistência" do Irã - que inclui grupos como o Hamas, em Gaza, e o Hezbollah, no Líbano - está desarticulado ou pelo menos militarmente enfraquecido em consequência da guerra. Por isso, o Estreito de Ormuz ganhou importância estratégica para os iranianos.
"Para o Irã, o Estreito de Ormuz é uma importante fonte de influência estratégica e sua principal fonte de dissuasão", disse Kamrava ao programa Today, da Rádio 4 da BBC. Segundo o professor, o Irã "tem plena consciência" de que não pode enfrentar os EUA em condições de igualdade em uma guerra.
"Por isso, o Irã procura transformar um conflito militar em um conflito econômico. É justamente por essa razão que deseja manter sua influência sobre o Estreito de Ormuz.
" Como resposta, Kamrava acredita que os EUA estão "determinados a retirar do Irã o controle do estreito", mas ele acha que ninguém sabe exatamente como isso pode ser feito - "nem mesmo os estrategistas do Pentágono". "Já vimos o presidente dos EUA tentar diversas abordagens, e parece que os americanos agora estão adotando uma estratégia diferente. Eles estão atacando locais altamente estratégicos ao longo da costa sul do Irã, no Golfo Pérsico", afirma o professor.
O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou publicamente que seu país vai controlar o Estreito de Ormuz e cobrar uma taxa de 20% sobre toda a carga transportada pelo estreito. Em comunicado divulgado na rede social Truth Social e replicado pelo Comando Central dos EUA (Centcom), Trump afirmou que o estreito permanecerá aberto, mas o controle americano impedirá que "navios iranianos ou seus clientes entrem ou saiam". O bloqueio, segundo o Centcom, entrará em vigor em data e hora especificadas.
O dinheiro arrecadado com a taxa, segundo Trump, seria para bancar a operação americana na via navegável essencial ao comércio de petróleo mundial. Os EUA lançaram ataques contra o Irã pela terceira noite consecutiva, em meio à escalada das hostilidades. Essa ação ocorre após os Emirados Árabes Unidos acusarem o Irã de um ataque "audacioso" a dois navios-tanque no Estreito de Ormuz, que deixaram um tripulante morto e oito feridos.
O professor Kamrava avalia que tanto o Irã quanto os EUA querem que o conflito chegue ao fim, mas ambos insistem que isso precisa acontecer nos seus próprios termos.
"Países como Omã, Catar e Paquistão estão fazendo o que podem para incentivar uma mediação. Seja por meio do memorando de entendimento já assinado ou de alguma versão dele, os dois países reconhecem a necessidade de chegar a algum tipo de solução negociada", diz Kamrava. O conflito está tendo repercussões negativas na região. Ele afirma que países como Catar e Emirados Árabes Unidos passaram as últimas décadas construindo uma imagem de segurança, estabilidade e prosperidade.
"E tudo isso está sendo abalado pelo que parece ser uma escalada involuntária do conflito. A frente envolvendo a Arábia Saudita e os houthis voltou a se intensificar. Se os houthis decidirem fechar o Estreito de Bab el-Mandeb, poderemos estar diante de uma nova escalada significativa. Estamos vivendo um momento extremamente delicado.
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