Dan Ioschpe, que assumiu este ano a presidência do Iedi, cobra mais incentivo a pesquisa em inovação para empresas e mais cuidado com o meio ambiente: 'A agroindústria não vai poder ter um manejo irresponsável e colocar produtos ao redor do mundo'.
Dan Ioschpe, que assumiu a presidência do Iedi em 2019 pelos próximos quatro anos, elogia a agenda do governo e afirma que o momento, no entanto, não é para queixas. A agenda fiscal está na direção correta, o dólar perto dos R$ 4 aumenta o ganho dos exportadores, inflação e juros estão baixos e a Reforma da Previdência foi aprovada.
"Provavelmente nós nunca estivemos em uma situação em que as condições macroeconômicas se aproximavam de uma favorabilidade como a atual", diz o ex-presidente da fabricante global de rodas automotivas Iochpe-Maxion, e que desde 2014 passou a ser presidente do seu conselho de administração. Ioschpe, que também preside o conselho de administração do Sindipeças e integra o conselho de administração das empresas da WEG, Profarma, Cosan, BRF e Marcopolo, minimiza a ausência de medidas menos específicas de estímulo ao setor. Mas cita especialmente o contingenciamento de programas que estimulam a inovação, área considerada prioridade pelo empresário."Existe volta e meia um grau de contingência que para a nossa atividade não deveria existir. Gera uma incerteza e desestimula a agressividade das empresas para acelerar esse tipo de assunto [inovação na indústria]. Mas é fato que se você não tiver a macroeconomia ajustada, provavelmente o resto sem a macroeconomia é jogar dinheiro fora". Também adota tom cauteloso ao dizer que, no meio ambiente, o governo tem causado mais barulho do que deveria, o que não ajuda a intenção da indústria de espalhar seus produtos pelo mundo."Nessa área [a do meio ambiente] é bom você não ter eventos, não ser um assunto. Em geral, quando você é visto como um país pode estar gerando desequilíbrios, é melhor que isso não ocorra. É melhor que você esteja em equilíbrio, bem visto, do que eventualmente com preocupação. Não vai ajudar nas cadeias produtivas globais que você receba um evento ambiental."BBC News Brasil — A indústria perdeu muita participação no emprego e na economia durante a recessão. Como avaliam as políticas do governo Bolsonaro para o setor?Eu acho que mais do que nada a direção macroeconômica é adequada, e isso é muito importante. Se você fosse escolher o fator mais destrutivo dos últimos anos não foram políticas setoriais, mas a própria macroeconomia desajustada. Choques e períodos muito curtos de tranquilidade, uma volatilidade extremada, inflação, problemas cambiais.Em termos gerais, o grupo de medidas que o governo tomou até agora na agenda econômica vem ajudando a que tenhamos um ambiente macroeconômico saudável. Bem expresso na taxa cambial e na inflação, que são dois indicadores muito importantes, talvez a gente não tenha vivido uma situação análoga nos últimos 40, 50 anos, ou talvez nunca. Provavelmente nós nunca estivemos em uma situação em que as condições macroeconômicas se aproximavam de uma favorabilidade como a atual. A reforma da Previdência, que foi muito importante, acabou ajudando porque as contas públicas, que eram a parte mais débil desse arranjo nos últimos dez anos, podem ter sim um equacionamento. Quando você soma essas últimas proposições, da reforma do Estado, reforma administrativa, elas vão de novo majoritariamente nessa direção do ajuste das contas públicas, considerando que essa é a parte mais fraca do arranjo. O governo ainda não está debruçado em políticas setoriais [para a indústria], até por uma hierarquia de fatores.Natural e também existe uma visão majoritária do governo de que com uma conjuntura macro bem ajustada, provavelmente o resto é bem mais fácil. A gente concorda, mas também defende que existem ações que podem ser feitas, como o fomento à pesquisa e inovação, defendido pelo Iedi. Vamos fazer coisas novas, mas tem muitas coisas já em curso no Brasil que são muito valiosas, como o sistema Embrapii, do Ministério da Ciência e tecnologia.Existe volta e meia um grau de contingência que para a nossa atividade não deveria existir. Gera uma incerteza e desestimula a agressividade das empresas para acelerar esse tipo de assunto [inovação na indústria]. Mas é fato que se você não tiver a macroeconomia ajustada, provavelmente o resto sem a macroeconomia é jogar dinheiro fora. Então, também não está errada essa prioridade. O que eu acho que a gente pode fazer, já que estamos caminhando aqui no nível um, é no próximo nível ir tomando as medidas e melhores caminhos para que a gente agilize e não perca tempo em assuntos, por exemplo: nós temos a questão da indústria 4.0, para fazer a expansão dessa ideia a nível nacional em que governo, entidade e empresas podem se ajudar e coordenar e fazer uma busca no fim do dia. Assuntos que em geral outros governos acabam fomentando e tratando. Mas se for fazer uma análise de quanto se andou numa direção adequada, a gente vê com muito bons olhos e trata de dar ideias para que se faça em outras áreas.Dan Ioschpe — É óbvio que se não houver um crescimento minimamente robusto, o investimento é uma decorrência de necessidades. Ou você precisa de capacidade, ou de automação, desenvolver novos produtos.'Hoje o investimento mais relevante é justamente na inovação, na modernização, na automação, na busca de maior competitividade', diz Dan IoschpeTem vários setores que tiveram uma retomada. O automotivo é um deles [subiu 2,7% em jan-set de 2019]. Bens de capital, alguns casos. Mas vamos para 2020 com um ambiente mais aquecido do que 2019, e talvez essa retomada deva continuar. Onde nós achamos que hoje o investimento mais relevante é justamente na inovação, na modernização, na automação, na busca de maior competitividade. Precisamos lembrar que parte desse conjunto da obra é a inserção do Brasil nas cadeias de valor mundial, com acordos de comércio e iniciativas dessa forma. E aí tem um grande desafio que é como a gente luta contra o custo Brasil e a questão da competitividade, como a gente chama,"da porta para fora" da fábrica nas empresas.Eu acho que a redução desse custo Brasil, por melhor que o governo trabalhe, ela será longa. Infraestrutura, segurança patrimonial, questões tributárias, insegurança jurídica logística, você não resolve essas questões em um ano, três. Algumas podem levar dez anos. Se você for pensar na questão da segurança patrimonial, que é um custo muito significativo no Brasil. Você ter guardas armados 24 horas por dia em portarias, é um custo que outros países não têm. Há países que não têm nem guarda armado, nem ninguém, nem portaria. Isso é custo. Quando você está em cadeias competitivas, em que a margem é apertada e a competição acirrada, isso faz a diferença. Você ajusta isso em pouco tempo? Não. Então o foco das empresas em diversos setores agora é ganhar produtividade, competitividade, até porque capacidade em geral ainda existe.Você pode ter, inclusive, investimento, que naquele setor não vai aumentar o emprego. Por exemplo, se você está falando de investimento em automação, que é muito necessário, ele talvez no líquido não seja um gerador de emprego. Tem indústrias que têm emprego de altíssima qualidade, mas não geram muito. Eu acho que vamos ver uma recuperação do emprego, não a galope, mas com determinada velocidade, mas precisamos que a economia venha como um todo. Já vemos não no Brasil todo, mas em São Paulo, o setor da construção civil tendo uma retomada dos lançamentos, isso vai acabar ajudando o emprego. E de certa forma, ajuda a indústria. Você já está tendo uma recuperação do emprego, mas no momento você tem também uma recuperação de quem quer emprego. As duas coisas estão crescendo. O percentual de desemprego ainda não mudou muito porque, quando você vê a perspectiva de trabalho, as pessoas voltam a procurar. BBC News Brasil — Que achou das medidas de criação de emprego para jovens? Gerou polêmica o fato de se taxar o seguro-desemprego para financiá-las.A ideia de incentivar o emprego de um estrato etário que tem os maiores índices de desemprego, é uma iniciativa meritória. Em especial pelo possível efeito de gerar experiência para esse público, que talvez sem essa iniciativa não conseguiria isso, ficando inabilitado para o mercado de trabalho. Fazer isso sem gerar buracos orçamentários também parece ser um bom caminho. E, finalmente, fazer uma iniciativa com o final pré-determinado, permitindo uma avaliação de resultados, também parece ser um método adequado. Quanto à efetividade, teremos que aguardar. Mas o desenho e implementação parecem ser adequados.Direcionalmente parece adequado. Você está de novo tentando ao longo do tempo recuperar as condições do Estado. Acabar com essa cunha em que os gastos da Previdência acabam ocupando cada vez mais espaço dentro da arrecadação. Talvez seja um caminho adequado para isso. Por outro lado também vai ser importante que haja um pacto legislativo de como esse excesso vai ser utilizado por Estados e municípios para que não voltemos onde estamos hoje. Se você usar esse excesso fiscal para contratar serviços desnecessários ou aumentar folha de pagamento, pode não dar um uso adequado.fora a agenda econômica? Como a indústria vê as políticas para o meio ambiente, por exemplo?Eu acho que o meio ambiente é uma agenda chave que não está apartada da economia. Hoje você tem uma comunicação entre a percepção do produto, de onde ele foi feito, como ele foi feito, uma rastreabilidade do produto, para acordos. O meio ambiente não está apartado e não é uma visão romântica, é uma parte significativa do arranjo produtivo, econômico e socioeconômico também. Então acho que, em geral, há de se ter muita cautela com esses assuntos e há que se ter uma visão avançada e determinada de que a gente esteja em linha com as melhores práticas e expectativas que se tem ao redor do mundo. Claro que no caso do Brasil a gente tem que se ter um pouco de cuidado entre aquilo que se está fazendo e eventualmente aquilo que se é comunicado. Nosso foco tem que ser naquilo que se está fazendo. BBC News Brasil — Na semana passada, por exemplo, o governo revogou o decreto que proibia a produção de cana no Pantanal e na Amazônia.Existe posicionamento na indústria também nesses temas?A posição da indústria nesse caso específico do meio ambiente é que não está fora [da economia], está dentro. Que a percepção, como te falei, você não vai conseguir apartar. Agroindústria, por exemplo, você não vai poder dizer eu tenho um manejo irresponsável e quero colocar produtos ao redor do mundo. Isso não vai acontecer.Coloca. Você tem hoje responsabilidade socioambiental daquilo que você faz há muito tempo. E acho que a nossa prática é boa, ela é, em alguns casos, acima da média. Temos que separar um pouco percepção de realidade. BBC News Brasil — Mas e sobre as políticas do governo para o meio ambiente, vocês têm alguma posição? Está na direção correta?BBC News Brasil — Eventos negativos?Eventos . Nessa área [a do meio ambiente] é bom você não ter eventos, não ser um assunto. Em geral, quando você é visto como um país pode estar gerando desequilíbrios, é melhor que isso não ocorra. É melhor que você esteja em equilíbrio, bem visto, do que eventualmente com preocupação. Não vai ajudar nas cadeias produtivas globais que você receba um evento ambiental.
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